EVARISTO CUTILEIRO

Homenagem em Évora

 

Foi em 27 de Junho de 2009 que os amigos e sócios da ACRA (Associação de Criadores do Rafeiro do Alentejo) homenagearam o Evaristo Cutileiro durante o almoço que teve lugar, depois do Concurso realizado em Évora.

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A “raça” deste nobre animal, guarda dos rebanhos e dos montes, neste Alentejo que nos é tão querido, estava em risco de desaparecer quando surgiu em Monforte o seu Centro de Reprodução associado à sede da ACRA. À frente dessas unidades está o amigo Evaristo Cutileiro. Quinze anos já lá vão, desde o dia em que, este Alentejano de “mão cheia”, Homem também de valores e convicções fortes, lá permanece com a sua determinação, a sua entrega, o seu amor incondicional, a este País do Sul, que o viu nascer, e que ele tem bem arraigado na sua Alma de Alentejano. Para defender os valores e as tradições deste terço de Portugal, ardente, mas tão nosso, ele esteve e estará sempre disponível e presente.

Mais do que esta homenagem, merecedíssima, o Evaristo será sempre um marco nestas planícies, onde os homens pastores usam casacos de pele de ovelha com o garbo de verdadeiros embaixadores, como escreveu o grande Miguel Torga, um dia nos seus “Diários”. Duas “raças” que não queremos nunca ver extintas: o Rafeiro do Alentejo e o Evaristo e a sua prole. Só Homens como tu, que se dedicam a defender causas nobres, nunca serão esquecidos, e ficarão na memória dos vindouros. Com o mesmo valor com que batias as palmas a um toiro e o abraçavas pelo pescoço, agarraste esta “empreitada” de reabilitares um patrimônio genético que estava em perigo. Foste, uma vez mais, um Homem, com H grande. Um abraço forte, amigo Evaristo.

 

António José Zuzarte

Dezembro de 2009

 

Pois é o tempo passa...

 

Há trinta e tal anos os Rafeiros quase tinham desaparecido da face da terra, ou seja, do seu solar alentejano. Depois, homens e mulheres de bom senso, gente boa, dedicada e empreendedora, achou que este cão não podia desaparecer, pela simples razão que esta terra sempre fora a sua, os avós dos avós já os tinham nos montes e se o Criador os pusera lá, aí deveriam permanecer e quem sabe, daí partir à conquista de outras regiões, outros mundos. Tinham acompanhado os povos que a este extremo da Península chegaram, daqui poderiam partir de novo acompanhando outros povos, outros rebanhos...

 

O associativismo dava os primeiros passos no nosso país, em novos moldes, mais participado e não dirigista, pretendiam uns, acreditavam quase todos. Surgiu um Clube de Raça, com objectivos dignos, ideias justas e exequíveis. Teve o seu papel no início da recuperação de uma raça que alguns julgavam extinta. Mas o associativismo não era afinal tão participado, o dirigismo persistia e quando não há colaboração de todos...tempos menos bons toldam o horizonte...

Mas parar é morre. E surge há 15 anos uma nova Associação. Uma associação, não um clube. Visando prosseguir idênticos objectivos, adequados aos tempos actuais, denotando maior dinamismo e participação, uma pequena revolução na pacata canicultura associativa nacional, partindo de um cariz regional, mais ampla base de apoio, maior empenho e tenacidade dos seus dirigentes...

Surge a ACRA. Logo se distingue no combate por ideais e defesa dos objectivos. O caminho não era fácil e estava lamacento, escorregadio, senão minado. Foi um trabalho persistente, sofrido, de convencimento das gentes e de demonstração a quem não acreditava (ou a quem não convinha acreditar), que era  possível fazer mais e melhor e sobretudo de maneira diferente. Alguns sonharam, acreditaram e pela evidência fizeram acreditar...e a obra aí está.

15 anos de muito empenho, de muita perseverança, de muitas vitórias e algumas derrotas, de ideias novas, de experiências em marcha, sem dúvida de alguns erros ou caminhos menos adequados...Mas que seria do mundo se todos pensassem da mesma maneira???

Morria o debate, morriam as ideias, sem ideias não havia obra, sem obra não haveria futuro, sem futuro não há decerto vida....

Os homens e mulheres da ACRA souberam acreditar, souberam tentar, souberam fazer...Com mais ou menos dirigismo dirão alguns?! Mas ele tinha de existir, pois se houvesse participação real de todos os interessados, ele não seria tão necessário e quiçá menos energias alguns dispensariam, ao trabalhar em prol de todos...

 

E cá estamos...15 anos...

Um primeiro concurso, irá correr bem? Há cães? Há patrocínios???

Vem o segundo, o terceiro, uma explosão de concursos por todo este Alentejo imenso que não há terra transtagana que não queira ter uma mostra de cães alentejanos...

 

E meus amigos, sem quase alguns darem por isso – o Concurso n.º 150 aí está...

O centésimo quinquagésimo. Já viram bem?

Cabe aqui e agora, perguntar:

Que seria desta tão nobre raça autóctone, de forte presença regional, hoje de novo presente na larga maioria dos montes e rebanhos, mas também com implementação nacional e a despertar o interesse internacional...

Que seria dela sem os apaixonados do Rafeiro, sem os criadores, sem os Concursos, sem a ACRA?

Trabalho de mérito sem dúvida. Mas trabalho de responsabilidade, que respeita e honra o passado mas que exige futuro. Uma raça autóctone não é nunca uma entidade fixa, imutável, segura, conservada...Isso é nos museus. Será válido para a Torre de Belém ou o templo de Diana. Se quisermos desmanchá-los e montá-los noutro lado é fácil...Basta numerar as pedras...Mas atenção isso é património importante, sem dúvida, mas morto....

 

Ora uma raça canina, equina, ovina ou qualquer outra autóctone são património de museu? Nada disso... Bastam alguns anos de deficiente orientação na criação e condução dos destinos da raça....E pode saber-se como ela começou, não se adivinha é como ou quando irá acabar... Cautelas pois....E isto é válido para todos nós, dedicados rafeiristas, mas sobretudo para quem tem a obrigação de defender este património português vivo inimitável – aquela entidade abstracta e poderosa chamada Estado.

Cuidados pois senhores do Estado. A vossa missão passa também por aqui.

 

Por isso, honra à ACRA e aos seus responsáveis ao longo dos 15 anos...

 

Mas também exigência de maior empenho e dedicação associativa às gentes do Rafeiro Alentejano...

 

 

Jorge Rodrigues

Dezembro de 2009

       

       

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