Boletim
Informativo nº 27
(Por
Carlos
d’Orey)
O cão do Vagabundo
Não se trata este artigo de Rafeiros do Alentejo, como é
hábito, mas sim de cães de um
modo geral. De todo e qualquer cão.
O cão tem uma característica que não se encontra em muitas
mais espécies animais.
É o facto de podermos encontrar neles uma expressão de
alegria ou de tristeza, e até de outros sentimentos.
Não é raro olharmos para um cão e dizermos, este cão tem um
ar triste, aquele tem um ar feliz, olha aquele com um ar
doce, outro com um aspecto feroz. E conseguimos perceber em
cada animal o seu
estado de espírito, temperamento
ou carácter.
Nos homens, o seu estado de espírito, o seu temperamento e
carácter, são determinados pela educação que tiveram desde a
mais tenra idade, pelo bem estar que a vida lhes proporciona,
mas sobretudo pelo amor que conseguem dar e pelo de que são
alvo.
Também para os cães este princípio se aplica.
Os cães são carentes de afecto, e têm montes de amor para
dar.
Um cão vítima de maus-tratos é sempre um cão problemático,
pode-se tornar um animal agressivo ou medroso, e nada mais
perigoso do que um cão medroso, são os que atacam quando
menos se espera.
Aquele cão é mau, é logo o que as pessoas dizem. Nada mais
errado, não é o cão que é mau, teve simplesmente o azar de
ter um mau dono.
E os maus tratos não são só bater no animal. Um cão que é
amarrado a uma corrente de metro e meio, e ali é deixado
toda a sua existência, com um bidon a servir de casa, casa
que no verão se torna um forno porque a maior parte das
vezes não tem qualquer sombra. Ou aqueles que são confinados
a um canil de pouco mais de 1 metro quadrado, sem que o dono
os leve num passeio para poderem estender as pernas, a
comida é-lhes atirada para dentro do canil ou posta numa
lata ao pé da corrente. Ou, como tantas vezes tenho visto
nas cidades, naquelas varandas exíguas, Pastores Alemães,
Huskis, e outros cães de médio e grande porte, deitados ou
sentados o dia inteiro porque nem espaço para dar um passo
têm. Isto são maus tratos, isto é crueldade.
Cães não são galinhas ou porcos que se criam em aviários ou
quartelhas, dando-lhes simplesmente comida à espera que
engordem para se abaterem com lucro.
Cães não são periquitos ou canários que se têm numa gaiola
para nosso bel-prazer de os olhar e ouvir cantar.
O cão é um animal social. Desde que nasce que devemos
começar a dar-lhes algum do nosso tempo, mexendo-lhes,
fazendo-lhes festas, esfregando-os, falando com eles.
Ao princípio eles só sentem as nossas mãos, mais tarde
começam a ouvir-nos, só depois nos começam a ver. A partir
daí começam já a conseguir brincar, e temos que lhes
conceder esse privilégio. Privilégio que é nosso também pois
todo o tempo que possamos dar-lhes se vai reflectir a nosso
favor. Assim, quando o cachorro atinge os dois meses, idade
em que normalmente sai para um novo dono, está um animal
absolutamente sociável, brincalhão, sem medos nem receios,
que imediatamente se adapta ao novo dono. Este fica
satisfeito, nós também. E quão grato é para um criador ir
ouvindo de donos de cães por nós criados, e até de
veterinários que os assistem, elogios à afabilidade e
docilidade dos cachorros provenientes do nosso canil.
E para que o cão continue a ter uma existência feliz, tem o
novo dono que continuar a dar-lhe durante a sua vida de
adulto, aquele afecto, a disponibilizar o tempo para
passeios e brincadeiras a que o animal tem direito.
No fim tudo se pode reduzir a uma palavra:
Tempo.
Tempo para as festas, para os passeios, para falarmos com o
cão. Tempo para lhe dar de comer, para o escovar e dar banho.
Tempo para o observarmos, os seus olhos,
e perceber se o seu
comportamento é normal, se não apresenta sintomas de doença.
Tempo.
Tempo por vezes tão difícil de arranjarmos devido à nossa
vida profissional, mas também porque é mais cómodo
satisfazer de imediato as nossas necessidades.
O cão não se queixa.
Quantas vezes não vemos nas grandes cidades, nas vilas, nos
caminhos, vagabundos que quase sempre se fazem acompanhar de
um ou vários cães.
Normalmente olhamos para aqueles e sentimos pena deles: “coitados,
pensamos, o dono nem tem que comer para si, o que é que será
dos pobres dos animais”, ou, “ o pobre do homem nem tem um
teto para dormir, e o cão tem que dormir com ele ao relento”.
As pessoas têm pena do homem, mas têm ainda mais pena do cão.
Pois normalmente estão enganadas. É que aqueles cães são os
únicos que não precisam pedir ao dono que os leve a passear,
que lhes faça festas, que esteja ao pé deles, que não os
ponham fora de casa porque sujam o tapete ou deixam pelos no
sofá. Sabem que quando o dono come qualquer coisa, mesmo
pouca, há sempre um pedaço para ele.
Estes cães estão com os seus donos 24 horas por dia.
Todo o
tempo
Quem mais pode dar aos seus cães tanto tempo?
Só os vagabundos o
têm.
Os seus cães são os
mais felizes.
Os cães mais felizes do mundo são os cães dos vagabundos.